|
Em qual Matrix você está? O Twitter e as mídias sociais
Por Eduardo J.S. Honorato e Denise Deschamps
O que é essa nova onda do Twitter? O que ela traz de impactos sociais? A que ela veio? Por que a sua inserção se deu assim tão rapidamente?
Quem atende em clinica particular, de convênio, social, comunitária ou qualquer atividade que tenha contato com adolescentes e jovens adultos, saberá mais ou menos o que estaremos abordando aqui. Algumas informações talvez possam ser úteis em seu trabalho, visto que necessitamos, sim, de mais pesquisa nessa área em nosso país. Hoje, perceberemos que se inteirar das características das relações que se estabelecem via Internet se torna algo importante para alguns aspectos trazidos para a clínica nossa de cada dia.
Se você já teve esse contato mencionado, responda se alguma vez, já ouviu uma dessas palavras: Mirc, Orkut, Facebook, Youtube, Gmail, Twitter, GoogleWave, MSN, Disponível, Manhunt, Parperfeito, Blogspot, Flick? Se você respondeu “sim” a qualquer uma dessas palavras, saiba que você está dentro do que se chama de “cibercultura”, em uma Matrix paralela que a Psicologia ainda tem certa dificuldade para entrar, mas que vem avançando em pesquisa e inserção. Muitos dos aspectos de transmissão de informação e capacidade de divulgação se encontram na atualidade marcados pela passagem pelos sites e demais espaços da rede mundial de computadores.
Isso porque a Cibercultura adentrou a sua vida sem pedir licença. Assim como foi antes com a TV, a Internet entrou nas casas, dominou hábitos, mudou costumes e tomou um ponto importante na dinâmica familiar, trazendo transformações inclusive no mobiliário e arrumação interna e, fez como antes o rádio e a TV que marcaram época. Segundo o IBGE hoje já passamos a marca dos 22 milhões de usuários conectados e lideramos o ranking mundial de tempo médio mensal de navegação.
Já é de conhecimento acadêmico o impacto que essa mídia tem no comportamento humano.
Mas é essa nova onda do Twitter? O que ela traz de impactos sociais? A que ela veio? Por que a sua inserção se deu assim tão rapidamente? Precisamos entender um pouco mais dessas mídias, pois fazemos parte e atuarmos nesse contexto agora.
O Orkut foi um dos primeiros a obter sucesso aqui no país, com sua capacidade quase sociométrica de unir pessoas. Foi bom enquanto durou. Virou um palco para perfis fakes (anônimos) com toda subjetividade que isso traz, marca e constrói, alguns com características perversas. Muitos ainda tentam resgatar o que pode ser saudável daquele que um dia foi um grupo operativo, mas que parece precisar de ações mais imediatas. Aquela área da cidade que é considerada perigosa no mundo real, assim se faz representar também no virtual, mas com características próprias desse espaço. Há que se tomar cuidado e evitar algumas coisas básicas, inclusive a questão dos famosos vírus ou invasores. Muitos desses aspectos adentram no consultório como queixas referentes a este site de relacionamentos. Desde conflitos conjugais até crises de ciúmes, passando por vítimas de cyberbulling ou mesmo de invasão de privacidade para alguns incautos ou novatos no uso desse site.
Vale ressaltar aqui que não há qualquer tipo de exclusão social neste aspecto, visto que a inclusão digital parece ter sido bem incentivada em nosso país. Estamos no topo do ranking mundial de acessos a internet, mas, infelizmente, não estamos no topo da lista no quesito educação. Somos, infelizmente, considerados um grupo mal educado virtualmente, já tendo sido chamados de “gafanhotos digitais”, pois adentramos sem pedir licença, manuseamos as mídias de forma equivocada e espantamos os demais usuários. Questões que podem levar a sérias reflexões sobre a “inclusão digital” e a confecção de alguma organização necessária. No aspecto da inclusão, muitos teóricos têm destacado o domínio da língua como o marcador mais importante no mundo virtual, onde outras diferenças do mundo off line se encontrarão bastante atenuadas no ciberespaço.
Agora veio o Facebook. É mais modermo, mais cool, diferente e teen. Os jovens de todas as classes ou já possuem um ou estão fazendo. É a bola da vez entre eles. O Facebook permite interagir com os outros, não mais pela questão sociável que o Orkut trazia, mas, sim, pela questão mais narcísica. Nele, há mais marcadamente um aspecto do se mostrar, falar de você, fazer testes de informações pessoais, brincar e interagir, se exibindo. O foco mudou de social para pessoal-social. Tem nitidamente um “q” mais narcisista,
E paralelo a isso, cresce o uso do Twitter entre os mais descolados e “antenados”, mas com a mesma característica narcisista da contemporaneidade. Segundo dados recentes divulgadas na Internet, O Orkut caiu para terceira posiçao entre as mídias sociais mais utilizadas no país, sendo ultrapassado pelo Twitter e pelo Facebook
Resumidamente, o Twitter é um site simples, sem muitos recursos, bem estático e aparentemente monótono. Há um espaço para responder “O que está acontecendo?”, e os usuários escrevem, com no máximo 140 caracteres, o que quiserem. É o exercitar da capicidade de ser direto na escrita. Poder de síntese. É o chamado “microblog” no qual você envia um pequeno texto, como uma mensagem de celular. O aspecto principal é passar alguma informação, quer seja pessoal ou coletiva.
Você segue pessoas e lê o que elas dizem, e pessoas o seguem, lendo o que você derramou em 140 caracteres para seus “leitores”. A interação ocorre apenas se você quiser, mas sem obrigatoriedade.
O serviço foi sendo “floreado”, assim como o MSN, por desenvolvedores de softwares terceirizados, permitindo uma interação mais síncrona. Além dos programas para acesso, outros permitem a mudança de fotos, mudança de fundo de tela, entre outros. Até que o site, aparentemente estático e sem graça, ganhou janelas no estilo mais Matrix possível. Você fala tudo que vem à sua cabeça e ouve aquilo que os demais têm a dizer. Ou não. Se quiser, responde, se não quiser, deixa pra lá e continua. É como se fosse um carrossel no qual pessoas passam em grupos e você entra e saí a hora que bem entender. Todos os dias pessoas falam sozinhas, escrevendo o que estão fazendo, respondendo às pessoas desconhecidas, compartilhando sentimentos e emoções.
Fazem declarações, reclamações, propagandas. É uma verdadeira feira, cheia de “pios” (ou tweets = mensagens) onde voce lê aquilo que você deseja, uma vez que foi você quem escolheu a quem ou ao que seguir.
Se você viu o filme o “Todo Poderoso”, com o Jim Carey, há uma cena em que ele, como Deus, ouve o desejo de milhões de pessoas, pedindo coisas. O Twitter é igual, mas com as pessoas falando o que quiserem. Esse agrupamento de pedidos, desejos, desabafos, desafetos acabou gerando uma outra Matrix paralela, onde questões sociais voltam a surgir.
Alguns fenômenos de comportamentos nitidamente patológicos começam a despontar. É possível verificar já uma busca incansável por “seguidores”, como se o número indicasse popularidade e servisse para acariciar o Ego daquele que usa. Muito mais marcante do que foi a questão do “eu quero ter mil amigos” no Orkut. Ter muitos seguidores passou a ser meta de vida de alguns, que incansavelmente chegam a implorar. E não são poucos. Estamos falando de milhares de pessoas que buscam constantemente esse reconhecimento virtual. A grande maioria, obviamente, visa muito mais do que uma provisão narcísica. Há grandes interesses econômicos já marcando tudo isso. Outro fato interessante é quanto o site sai do ar e a famosa “baleia”(FailWhale), símbolo de sistema sobrecarregado, aparece. Há uma espécie de histeria coletiva, uma correria de usuários tentando se conectar de outra maneira. A temida baleia virou brincadeira. É o medo que vira chistes.
Outro ponto importante é que o Twitter aproximou as celebridades de seus fãs, mas nem todas estavam preparadas para a rapidez e velocidade dessa ferramenta, e suas consequentes implicações.
Existe uma diferenciação entre pessoa e artísta, e esta seria um dos riscos que estes correm, ao se colocarem a prova no Twitter. O Blogueiro Carlos Cardoso (http://www.contraditorium.com/ ou @Cardoso) colocou em seu blog uma dessas preocupações, relativas a essa falta de barreiras. Quem acompanha e usa o Twitter tem visto uma briga virtual de unhas e dentes, envolvendo celebridades, colunistas, apresentadores, diretores – muitos dos quais não avaliaram o impacto que a exposição neste tipo de mídia social pode acarretar para as suas carreiras. Diversos deles nunca sequer tinham ouvido falar das questões do chamado “ciberespaço” e adentraram um território que pode ser bastante prejudicial, tanto em âmbito pessoal, como profissional. Não devemos esquecer o que a psicanálise fala a respeito: “tudo aquilo que se oculta é o que mais se revela”. É claro que é a busca por novas informações o que o seguidor mais quer descobrir.
O ator Aston Kutcher é um dos “garanhões” mencionados pelo psicanalista Francisco Daudt, em sua entrevista (a que veículo de comunicação?) que rodou a internet em forma de vídeo. Kutcher é casado com a atriz Demi Moore e ainda conseguiu mais de 2 milhões de “seguidores”. Essa disputa quase falocêntrica gerou frenesi entre os brasileiros e muito mal estar. Isto porque diversas celebridades desejaram alcancar esse número primeiro. Foi uma corrida, e quem ganhou foi o apresentador Luciano Huck – o primeiro brasileiro a ter 1 milhão de seguidores no Twitter. Twitterlândia virou um campo de batalha. Quem é mais engraçado, quem tem mais seguidores, quem interage mais, quem tem mais isso ou aquilo. A competição tomou conta e o “Coliseu Virtual” foi instaurado. As novas entradas (celebridades) são jogadas aos leões (usuários). Alguns são atacados, mordidos, outros se defendem e contra-atacam. Um circo digno de um reality show (desses onde os participantes se esquecem de tomar seus remédios ou tomam remédios controlados).
E o motivo disso acontecer? É que toda a interação está cada vez mais rápida, como um tornado. Isto expõe o artista ou pessoas a mostrarem o que realmente são. E isso poderá agradar ou não ao internauta ou ao seu público-alvo. A instantaneidade das mídias sociais somada ao fato de o Brasil ser um país de acessos a Internet com índices impressionantes nos fará ver que estamos diante de um fenômeno merecedor de muita atenção, que querendo ou não, invade o chamado mundo off-line(atual).
Muito se tem falado da chamada new mídia e talvez o Twitter venha exatamente sublinhar ainda mais esse fenômeno crescente. Procurar o famoso “lugar ao sol” sempre foi o objetivo de muitos que pensam ter algum talento a ofertar ao mundo. O que há de diferente trazido por essa nova mídia? Talvez resida exatamente em dois principais aspectos (e muitos outros, é claro):
*a rapidez com a qual alguém ou algo pode se tornar famoso. Estes são os chamados “Virais”, como “Pedro e o Chipe”e “Garota Uinban”
*a rapidez com a qual algo ou alguém pode cair dessa fama instantânea. Exemplos disso podem ser os chamados #mimimis com celebridades. Utilizaram de forma incorreta e isto gerou avalanche de críticas em relaçao aos seus trabalhos. Uso indevido de uma mídia social.
Alguns colunistas de jornais passaram a interagir mais com o seu público, mesmo os mais criticados, quebrando barreiras e preconceitos. Uma das pioneiras foi Rosana Hermann (@rosana) jornalista e blogueira mundialmente premiada. Mauricio Stycer (mauriciostycer), Daniel Castro (DanielKastro), Fabiola Reipert (freipert), Noblat(BlogdoNoblat ) e mais recenetemente, a sensação divertida do Twitter, William Bonner (realwbonner )
Alguns ex-reality show, como o Psiquitra Dr Marcelo Arantes (@dr_marcelo) mostram que são mais do que uma simples imagem, twittando informações úteis e alguns artistas se mostraram tão próximos de seu público que talvez renasçam das cinzas, no estilo fênix. Este é um dos pontos positivos que o Twitter traz para este “celebrity world”. Esse tão perto e tão longe que o mundo net/virtual vem nos ensinando e que nos provoca ainda “maravilhamento” e estranheza, em uma mistura que ainda não conseguimos processar muito bem.
Por outro lado, muitos artistas têm se mostrado chatos, repetitivos, cansativos e os comentários começam a surgir . Vários comediantes de programas semanais são criticados ou até mesmo celebridades antes intocáveis, como a apresentadora Xuxa, passaram por situações nada agradáveis, de ataques de usuários. Tem artista que só entra pra divulgar show, e acha que os usuários não perceberam que estão sendo tratados como números. Tem “celeb” que não escreve blog e tenta enganar que está twittando. Tem usuário fazendo baderna, como se aquilo fosse o playground de uma escola de ensino médio. As reações em massa, em progressão geométrica virtual, tornam-se um objeto interessante de se observar.
Quando o usuário se permite seguir e ler sobre algúem (sim, é ele quem se permite, o artista aqui está na forma passiva, mas narcísica), ele não está interessado em ler mensagens de spam ou escritas por outra pessoa. Ele quer interação com aquele que segue. Muitos ainda menosprezam a capacidade do chamado mundo net/virtual por sua capacidade de perfis máscaras (fake), mas o que temos visto é que essa diferenciação cai, mesmo quando por detrás de personagens montados, a exposição permanente mais revela que oculta.
E não é somente para celebridades que existe o Twitter. Muitos CEOs de empresas internacionais já o utilizam como forma de se comunicar com os usuários. No Brasil, a mania começou pelas emissoras de TV. Diretores, redatores, produtores estão todos online buscando informações e interesse em tempo real(atual). Enquanto o Ibope diz quantos assistem a sua programação, o Twitter lhes diz “o que querem assistir”. Não foi à toa que Celso Portiolli ganhou o Domingo Legal. Além da sua história e trabalho na televisão, quando foi preciso – e em tempo muito rápido – quem detinha o poder de decisão, a executiva do SBT Daniela Beyruti (@Danibey) ficou sabendo do desejo do público em tê-lo como apresentador. Ela deveria já tê-lo como “escolhido”, mas a pré-decisão foi reforçada pelos seus seguidores.
Isso mostra que o Twitter pode estar hoje, talvez, como uma ferramenta “à frente” das demais mídias. Quem acompanha essa mídia social sabe das notícias em tempo real. Ver o telejornal no final do dia é ter aquela sensação de “dejavù”, porque tudo passou antes pelo Twitter. Assistir aos programas dominicais se tornou repetitivo, pois muitos baseiam suas pautas no que é dito ou comentado no site. É, hoje, o centro da Internet. Talvez isto mude, talvez não, mas fenômenos importantes acontecem por ali.
O Twitter é a TV interativa do mundo moderno. As pessoas vêem televisão juntas e mandam tweets com as suas opiniões. Ou trocam informações entre pessoas que estão assistindo “juntas” ou entre público e os protagonistas. Imagine você assistir a uma entrevista do William Bonner no Programa da Marília Gabriela e ao mesmo tempo trocar comentários e informações com o próprio entrevistado? (isto aconteceu!) Imagine você assistir a um programa de comédia e interagir com os apresentadores (Pânico na Tv – todos os Domingos). Ou até mesmo, estar presente em eventos nos quais não pode, geograficamente ir. A blogueira Rosana Hermanm (@rosana – Querido Leitor) frequenta eventos sobre cibercultura pelo país e pelo mundo e informa em tempo real o que os grandes teóricos, pesquisadores e desenvolvedores falam sobre o tema. Essa virtualidade encurta o espaço geográfico e transmite informação em tempo real. Nas últimas semanas, diversos eventos foram transmitidos em tempo real pelo twitter, desde palestras, jogos de futebol, até julgamentos políticos.
Cada usuário mostra aquilo que é e que tem de melhor, e caberá ao público realmente perceber se vale à pena continuar assistindo ou dando importância para uma ou outra celebridade. Assim como a dança das cadeiras na TV que tivemos recentemente, teremos dança das cadeiras das celebridades, quando algumas ganharão maior importância e outras cairão, pois quebrou-se parte da fantasia do ídolo.
Daudt deixou claro na entrevista que esse imáginário popular sobre a celebridade pode passear entre “amor e ódio”, no melhor sentido kleiniano possível, e essa fantasia que se tem sobre um ídolo pode ser quebrada por uma simples exposição desmedida. Talvez o Twitter nos mostre quem realmente as pessoas são, e sejam admiradas pelo seu talento, pelas suas habilidades, e não pelas embalagens e roupagens que ganham na mídia. Ao contrário, veremos novas modalidades de atuação de máscaras e personagens.
Outra pergunta que não se cala diz respeito ao que se refere àquilo que chamaremos de verdadeiros talentos, esses que se evidenciam acima de uma multidão em busca da fama, isso poderá acontecer em qualquer setor de manifestação da arte.
Ainda sobra espaço para o aparecimento e manutenção do talento em nossos dias? Terá a arte também sucumbido a desafetação (retirada da emoção que se liga a um evento) e ao fast-food que permeia todos os vínculos na atualidade? Trataremos as manifestações do coletivo que conhecemos como arte, também como algo descartável? Temos a esperança que não, e ainda acreditamos que esses talentos continuarão a aparecer e a se manter pela beleza que trazem junto à sua arte. Talvez possamos pensar que, com o crescimento das mídias, o espaço para o efêmero tenha se alargado de forma gigantesca e que isso alimente essa nossa sensação de rapidez da fama – frágil fama quando não assentada em um genuíno dom.
Pensamos que a grande questão que nos assombra, seja a de transformarmos esses talentos em caricaturas desse descartável, seguindo a tendência dominante. Negar o talento incomensurável de Amy Winehouse , por exemplo, nos parece impossível. Mas sublinhamos através da mídia, não esse talento, mas sim sua tumultuada vida, que sabemos que já foi precedida por outros inúmeros exemplos parecidos, como o próprio Michael Jackson, Elvis Presley, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Ray Charles e tantos outros. Mas talvez, a mídia de suas épocas, tivesse um poder menor, uma capacidade bem mais reduzida de explorar suas idiossincrasias.
O twitteiro provavelmente ainda não tenha se dado conta do poder que tem nas mãos. Podemos pensar nas “fofoqueiras de plantão”, aquelas apelidadas de cotovelos roxos, das pacatas cidades do interior, que eram capazes de arruinar vidas ou elevá-las com apenas uma frase, repetida essa no telefone sem fio que se constituí a comunicação humana. Imagine essas “boas” velhotas com o poder do Twitter!
Isso nos colocará frente à outra importante questão: alguns pesquisadores acreditam que nessa era da conectividade, jogar informações sobre nós mesmos seria uma forma de assumir o controle sobre elas. Mas será que isso é algo de fato? A informação através da comunicação característica da “rede” será capturada como? Pensamos que tentar responder a essa questão poderá ser algo que faça a diferença.
O Twitter está aí nos trazendo mais algumas ricas indagações na atualidade. Pensar e pesquisar sobre a sua inserção em nossos vínculos atuais se torna algo bastante complexo e mais do que necessário nessa movimentação que caracteriza o homem contemporâneo em sua necessidade de quebra quanto ao anonimato, em busca constante de uma vitrine que dure um tanto mais que os meros 15 minutos de fama vaticinados por Andy Warhol.
Fato é que muitos de nós já entendemos que a Internet veio para ficar e que se constitui também em ambiente de trabalho, de divulgação das mais variadas. Aquilo que começou como arma militar e passou para entretenimento e lazer, começa a ganhar contornos de uma mídia poderosa. Quem está por esse ciberespaço há algum tempo já se deu conta disso.
Como utilizaremos isso é algo que ainda vem se construindo e que nos remeterá para a sempre constante questão que se apresenta frente à atividade humana, a construção de uma ética que não transforme tão poderosa ferramenta em um algo nefasto ou destrutivo, velha questão que atravessa a humanidade desde que o homem tocou outro ser semelhante a ele, e desde que pelo interdito constituiu-se como ser da cultura.
Só nos resta torcer para que não vire uma terra sem lei, dominada pela pulsão perversa, como aconteceu com o Orkut, com casos já relatados há alguns anos. Assim como temos a sociologia e a psicologia, com estudos macro e micro relativos a grupos, temos a cibercultura e a psicologia da virtualidade, com espaço para pesquisas e inserção. Só não podemos permitir que fiquemos de “fora”, visto o que aconteceu historicamente com a ergonomia. Não deixemos um espaço fértil para a pesquisa e inserção profissional do profissional psi cair no desinteresse da categoria. De uma forma ou de outra, essa virtualidade perpassará nossa atuação profissional.
Se algum dia alguém usar a expresão #mimimi em qualquer contato profissional que você tiver, não se assuste, são os neologismos do Twitter invadindo a vida real.
E se você acha que já entendeu tudo sobre o Twitter com essa simples matéria informativa, você está enganado. Vem aí o GoogleWave, que promete mudar mais ainda as formas de interação. Ele chegou, como próxima ferramenta, que deve causar algum impacto em um futuro próximo. Peguemos o nosso banquinho para assistir a cibercultura, mas com nossa contribuição de uma escuta e análise característica da nossa ciência.
Como chegamos ao Twitter:
Se voltarmos para a década de 1990, temos uma era de interação sincrônica, com máscaras feitas através do Mirc. Eram os primórdios da interação e o anonimato fazia parte. Pesquisas nacionais mostraram aspectos psicológicos muito importantes nesta área. Basta perguntar ao “tio google”, o “pai dos burros” de quem vive a internet, e ele mostrará qual é uma ferramenta importantíssima na atualidade, que ele responderá. Coloque as seguintes palavras: NPPI, Psicoinfo ou Psicologia e Informática que você encontrará muito material produzido, especialmente pelo grupo da PUC-SP e pelo CRP-SP.
Depois, veio o tal ICQ, que era como ter um “celular”. Você tinha um número a partir do qual podia fazer amigos e se comunicar com eles. Era chic e cool e até empresas usavam. Mas, o celular chegou e o MSN também. Esse tomou conta do pedaço e dominou o país. A comunicação continuou a ser síncrona, e um pouco mais direta, com nome e sobrenome. Entretanto, era interação com apenas uma ou algumas pessoas. Vieram, então, as mídias sócias que permitiram formas de interação coletiva, como o Orkut, o Facebook e o próprio Twitter.
Perfis fakes
A questão do amor e ódio nas relações virtuais pode nos fazer refletir sobre outro ponto importante: os fakes (e não confunda com avatares). Perfis fakes são aqueles criados com propósitos anônimos, muitas das vezes perversos, de colocar e expressar toda a sua pulsão de morte e de destruição. Vários são os casos recentes de pessoas conhecidas que tiveram seus perfis hackeados por brasileiros por puro prazer em destruir, em se mostrar perversos. Alguns exemoplos de pessoas públicas que tiveram perfis falsos criados: Fernanda Young, Victor Fasano, Monique Evans, socialite Narcisa, entre outros.
- Muitos dos aspectos de transmissão de informação e capacidade de divulgação se encontram na atualidade marcados pela internet
- O Orkut foi um dos primeiros a obter sucesso no Brasil, com sua capacidade quase sociométrica de unir pessoas. Virou um palco para perfis fakes
- O Twitter é um “microblog” no qual você envia um pequeno texto, quer seja pessoal ou coletiva, tal qual uma mensagem de celular
- Ver o telejornal no final do dia ou os programas dominicais é ter aquela sensação de “dejavù”, porque tudo passou antes pelo Twitter
- Talvez o Twitter nos mostre quem realmente são as pessoas, e estas passem a ser admiradas pelo seu talento, e não pelas roupagens que ganham na mídia
- Só nos resta torcer para que as novas mídias sociais não virem uma terra sem lei, dominada pela pulsão perversa, como aconteceu com o Orkut há alguns anos
*** Artigo publicado na revista Psiquê Ciência & Vida
**** Como em cibercultura tudo pode acontecer, o Google Wave foi um fracasso não esperado pelos criadores. Está com seus dias contados.
|