Cinematerapia®
Entendendo Conflitos
Valente
Artigo publicado na revista Psiquê Ciência e Vida, edição 31

Valente (The Brave One)

 

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

 

Jodie Foster retorna ao cinema depois de algum tempo, confirmando o porquê fora um ícone nos anos 90, arrebatando diversos prêmios. Como de costume, Foster interpreta uma mulher forte, decidida e disposta a controlar sua vida. Erica Bain (Jodie Foster) acaba de perder seu futuro marido, nas vésperas do casamento. Ambos sofrem um ataque com requintes de crueldade, quando curtiam os prazeres da vida a dois, aproveitando momentos simples, como um passeio com o cachorro pelo parque.

Após ficar em coma por algumas semanas, Érica “retorna” e é informada sobre a morte de seu noivo. Porém, a pessoa que retorna não é mais a mesma, dando vazão para pulsões [e não “instinto”], que antes eram reprimidos.

          As primeiras cenas do filme nos remotam aos casos clássicos de Transtorno de Estresse Pos-Traumático (TEPT). Ficamos surpresos ao perceber que Erica não recebe nenhum acompanhamento psicoterápico ou orientação, mesmo tendo sido vítima de um crime brutal. E obviamente, os primeiros sintomas aparecem na sequência: agorofobia e evitação. Seus sentidos aparentam estar aguçados, especialmente a audição – sua ferramenta de trabalho. Temos cenas perfeitas de sinestesia, onde sua audição distorcida se liga a memórias do trauma.

Após o incidente, ela questiona o mesmo que muitos cidadãos de megalópoles: quem são os bandidos e quem são os mocinhos? Sua percepção de que a força policial não está cumprindo sua função social fica clara quando ela demonstra esse “medo”. Podemos pensar na incerteza quanto aos interditos da cultura que se apresentam na contemporaneidade e que têm levado ao sofrimento o sujeito psíquico que passa, então, a se inscrever a partir do lugar do sintoma

          Nas cenas em que procura ajuda policial, percebemos a des-humanização das delegacias, que não somente acontecem em países “em desenvolvimento” ou países pobres. Mesmo em Nova Iorque, os contribuintes são tratados como “números”, como se estivessem sendo recepcionados por um dos irritantes atendentes robóticos de telemarketing. A falta de sensibilidade, de alguns membros da força policial, para lidar com situações traumáticas e causadoras de sofrimento psíquico são nítidas

          O trauma a que foi exposta no primeiro incidente, desperta em Érica o desejo de proteção. Como a proteção oficial é falha, ela procura se defender com a ajuda do submundo do crime, conseguindo uma arma ilegalmente. Como vive em uma cidade efervescente e em constante crescimento, era de se esperar que fosse exposta novamente a outra situação de violência, e assim, Érica dá início a uma nova forma de defesa: o ataque!

          É como se os traumas consecutivos, aliados ao medo e a sintomatologia do TEPT despertassem em Érica um quadro comórbido de Parafilia. Um Superego, talvez “flácido”, passa a atuar e defesas perversas surgem. Érica se transforma em alguém que nem mesmo ela reconhece: fria, calculista e disposta a matar.

          Seu programa de rádio passar a exercer uma função catártica, e é através dele que ela tenta entender o que se passa consigo mesma.  A violência da cidade, e agora a sua, passam a ter menos impacto, e viver com o “medo” é mencionado, mas afastado da vida dela. É então que ela entra em um ciclo de compulsividade, atuando em situações de risco, disposta a realizar sua vingança.

          A tríade perversa toma conta de seu comportamento: Onisciência,  Onipresença e a Onipotência. Como nos contos clássicos de serial killers, Érica retorna ao local de um dos crimes, e sua profissão de jornalista facilita uma aproximação com o policial responsável pela investigação dos crimes que ELA cometera. Se aproxima do Detetive Mercer (Terrence Howard) e usa as entrevistas e conversas informais para aperfeiçoar sua atividade ilícita. Assim como os policiais e bandidos, percebe que suas “mãos” não tremem, e por mais que relute em alguns momentos, matar se torna algo “necessário”. É então que saí em busca de situações que a coloquem em risco, buscando uma “defesa-ataque”. Talvez buscando como está dito por alguns autores, uma forma de ser vista em sua dor, pela atuação psicopática que busca ser descoberta.

          Quando seus ouvintes e fãs começam a debater sobre o possível justiceiro, podemos ver o Superego de Érica agindo novamente. É como se estivesse lutando para ter influência sobre ela novamente.  Em diversos momentos Érica relata que se tornou uma outra pessoa, brincando de Deus. A diferença entre ela e um anti-social é que ELA percebe que as mortes não lhe trazem prazer e algo a trás novamente para o “mundo real”.

          Dá mesma maneira que a situação traumática foi o fator desencadeante de um quadro comórbido como este, uma outra a faz retornar a realidade. Ao receber as encomendas de casamento, Érica percebe que se tornou alguém que não queria, mas que não há mais retorno e é preciso terminar o que começou. Reparem que Érica não diz que sente saudades do noivo, mas sim, sente saudades DE QUEM ELA ERA COM ELE. Então, termina sua “jornada” e percebe que um simples “tremer” das mãos retornou, trazendo à tona não a antiga Érica, pois não pode mais mudar que ela “é”, mas uma nova pessoa, capaz de entender melhor o trauma vivido e seguir sua vida.

          Podemos nos questionar de quem é a culpa neste caso. Da polícia? Da sociedade? Da criminalidade? NÃO! Milhares de pessoas passam pelas mesmas situações de agressividade e invasão, não somente física, mas também psicológica. E não são todas que reagem desta forma. Só podemos inferir que o episódio desencadeante teve grande impacto em Érica, é obvio, mas as questões ESTRUTURAIS de personalidade já estavam ali instauradas, no estilo “sujeito-cebola” proposto por Freud. No cinema, muitas vezes as situações são romantizadas e idealizadas, mas não podemos esquecer que nossa “heroína” comete crimes, e apesar do “sistema” não estar funcionando, esta falha não pode ser usada como justificativa para burlar o mesmo sistema.

          Além das questões relacionadas ao sofrimento psíquico de Érica, este filme nós faz refletir sobre questões sociais muito importantes. Aonde queremos chegar, enquanto sociedade? São cada vez mais comuns, em nossos consultórios, casos de TEPT, Pânico e fobias, Somatizações etc. Estes nos fazem refletir sobre o impacto que nosso modo de viver está tendo em nossa saúde mental.

          Cidades gigantes, como São Paulo, vivem em caos urbano. Quilométricos engarrafamentos geram doenças, físicas e psicológicas. As cidades sofrem mutações constantes e estas alterações urbanas têm sim impactos profundos em nossos comportamentos. Talvez seja hora de darmos o valor devido aos estudos de psicologia ambiental e em no que estamos transformando o nosso habitat, e em que isso influenciará as gerações futuras. Assim como é dito no filme, temos que refletir sobre COMO queremos viver.  “Existem várias maneiras de se morrer. Morrer é fácil. Achar uma forma de se VIVER é muito mais difícil”