Nosso filme começa com nossa protagonista, Abby Richter (Katherine Heigl), uma mulher tipicamente moderna. Executiva de uma rede de televisão local, talvez ela represente o protótipo perfeito de uma histérica, uma caricata representação. Freud a teria descrito em uma de suas obras, caso fossem contemporâneos e ela tivesse a sorte de encontrar o caminho da Rua Bergasse, 19 em Viena.
Abby vive esssa agitação que o mundo moderno exige e consome da nossa energia psíquica, de alguma maneira nos leva a pensar em todo desempenho ao qual a mulher inserida no mercado de trabalho é constantemente impelida a exercer para manter-se nele. Investiu toda sua libido na sua carreira e sucesso profissional. É metódica, controladora e racional, e se envolver emocionalmente é algo que não faz parte do seu cotidiano, pois não cabe na sua agenda digital. É moderna e marca encontros através de “perfis”. Faz sua escolha vasculhando tantos desses sites de relacionamentos que existem por aí, que variam e flutuam dentro do que chamamos de “mídias sociais”. De alguma forma nos remetem de uma forma pragmática contemporânea, aos velhos sonhos do encontro com a ansiada “alma gêmea”.
Quase não entra em contato com emoção, que fica “cortada”, se faz dominada sempre pela razão. Como muitos que procuram os consultórios tem uma lista de pré-requisitos que seu pares ideais devam ter, desde altura até gosto musical, passando por literatura. Abby faz sempre uma investigação sobre a vida do candidato, uma vez que nos dias de hoje, uma “googleada” ou uma “bingada” pode fornecer várias informações sobre um pretendente. É a racionalização total do sentimento, porém, o Inconsciente não age dessa maneira. Sabemos que para que todo o processo de “amor” e projeções ocorram, é preciso despertar essa pulsão de nosso Inconsciente, é necessário que o objeto de amor tenha capacidade de atração para esses investimentos que buscam fazer a ligação, a pulsão é sempre anterior ao objeto, disso também sabemos. E não tem tecnologia ou programação, modernidade, que possam mudar esses aspectos dos laços humano.
Esta personagem nos leva a refletir sobre o eterno dilema entre razão e emoção, e na salubridade que se encontra no equilíbrio entre ambas as coisas. Os grandes fatos da história nos mostram situações, tanto positivas, quanto negativas, quando o homem se deixou levar apenas por um destes. O segredo está no equilíbrio. Até porque tentar mover-se por apenas um desses aspectos apenas desarruma ainda mais as nossas possibilidades de acordos entre pulsão e realidade externa.
Para equilibrar também no filme, temos a entrada de Mike Chadway (Gerard Butler). Neste mesmo momento é quando se ouve um uníssono feminino na sala de cinema entre suspiros e ais. Sim, ele é o másculo de “300” e o doce e amável de “Ps Eu Te Amo”. Um dos queridinhos de Hollywood, e neste filme vem a representar tudo que a emoção a impulsividade pode demonstrar.
Desde o início já se sabe o final do filme, conhecidas fórmulas holywodianas, mas de todas as maneiras o espectador torce, rí, chora e vibra com toda a trama entrelaçada. Abby tem uma contenção dos afetos tão intensa que o mais próximo que ela chegou até aquele momento de um relacionamento nos últimos anos foi o dar e receber o carinho a um animal de estimação (gato).
A entrada de Mike como protagonista do programa de TV dirigido por Abby traz à tona a eterna questão de amor e ódio. Podemos ver o quão iguais e únicos são esses dois sentimentos. Não é possível se odiar alguém que nunca se tenha amado, ou nesse caso, um ódio e raiva que esconde uma atração loucamente inconsciente, o despertar de uma paixão. Sabemos que o caminho para o desinvestimento em relação a um objeto, ou seja, não amá-lo, passa pela indiferença, odiar e amar são parte psiquicamente de um mesmo impulso.
Esse relacionamento com Mike, começa mesmo antes de se conhecerem, quando Abby liga para o programa que ele apresenta. Como muitos fazem nos dias de hoje, lá ela expõe sua vida em rede nacional e interage com a televisão como se esta fosse realmente uma pessoa. Muitos fazem hoje o mesmo com a internet e as mídias sociais, dado um suposto nível de carência de interação existente ou ainda em seu oposto, contudo complementar, chamado excessivo para que isso seja feito, nesse corre-corre do cotidiano atual. Naquilo que permeia as relações que fala de um esgotamento rápido, um “fast-food” emocional. Compulsivamente se “goza” na relação com o outro.
Ao começarem a trabalhar juntos, apesar de ver nele o cafajeste, canastrão, machista e todos os demais adjetivos que Abby diz odiar em um homem, uma relação linda de amizade surge entre eles. Enquanto ele faz análises selvagens na televisão, dando dicas sobre como conquistar uma mulher ou como lidar com relacionamentos, ela tenta manter o seu canal de TV em um nível educativo e saudável. São literalmente os opostos – em conteúdo manifesto apenas. Na latência, ambos são idênticos, com os mesmos desejos e anseios, seres solitários naquilo que diz da possibilidade de fazer vínculos satisfatórios.
Aqui podemos questionar o que acontece na nossa televisão nos dias de hoje. Programas com “conteúdo” não têm os mesmos íncides de audiência que aqueles que não tem as pretensões de serem culturais. A nossa mídia hoje vende o que o povo quer ver, e isso é bem caracterizado no filme, ao mesmo tempo que reforça essa demanda pela vertente do lucro rápido e grande que satisfazê-la, a essa demanda, traz. Nesse frenesí moderno, as pessoas não querem PENSAR em seus chamados momentos de descontração, e assim, os produtos mais simples são vendidos com mais facilidade. Isso fica nítido no filme quando, da entrada de Mike, os índices de audiência extrapolam os recordes do programa, deixando Abby enfurecida, vencida em suas opiniões, porém, disposta a trabalhar neste novo panorama. É interessante entender a relação de desejo e comportamento. Quando ela diz querer um programa mais sério e cultural, sonha com ela mesma semi-nua, apresentando a previsão do tempo, em algo que Freud teria enorme prazer em analisar nos mínimos detalhes. Parafraseando o título em português dado a esse filme: exibicionismo nu e cru, prazer pulsional.
Paralelamente, em sua recente relação de amizade, fazem um trato onde ele a ensina a conquistar um vizinho. Enquanto ele a transforma em outra pessoa, ela o transforma de volta no que ele fora um dia, um homem com sentimentos, sem tantos rancores e nem tão debochado como parece.
O filme nos mostra, como tantos outros, que mulheres e homens não são tão diferentes assim, sujeitos do Inconsciente antes do traço da cultura e o verniz da educação. Nos defendemos de maneiras diferentes, mas no fundo, somos os mesmos escravos do demoníaco de nossas pulsões, e nosso ego vive essa eterna batalha entre os seus três senhores, cada um lidando com as armas que tem.
Abby descobre um vizinho perfeito. Médico, bonito, bem sucedido, porém, sem interesse por ela. Mike a ensina desde a maneira de se vestir, até como fingir um orgasmo, passando por aulas de masturbação. Sim, é ele que convence a moça neurótica e quase obsessiva que masturbação é algo natural e saudável. Uma das frases do filme arranca risadas da platéia, quando este diz algo como “se nem você quiser fazer sexo com você mesma, quem dirá os outros”. Seguem-se mais algumas cenas hilárias sobre masturbação feminina, com direito a orgasmo em uma mesa de jantar de negócios, provocado por uma calcinha vibratória.
O então professor de Abby passa a ajudar seu suposto relacionamento nos mínimos detalhes, como uma espécie de treinador. Em um jogo de baseball temos uma referência rápida, engraçada, mas bem importante, de como as pessoas têm interesse na vida allheia. É a curiosidade quase mórbida que move parte da sociedade atual e movimenta tantos e tantos reality shows pela televisão. Abby é flagrada em atitude “suspeita” em pleno jogo, e é claro, mais risadas garantidas.
Só que mesmo sendo racional, modulada, com um comportamento orientado, a relação com o vizinho Colin parece ir um pouco devagar. Dá pra perceber que suas pulsões não foram totalmente despertadas e seu objeto libidinal nao é esse, e sim, outro. Em um momento onde o alcool fez sua parte, adormecendo seu superego, a realidade permitiu (dentro de um elevador), Abby se deixa tomar conta pelo seu desejo e temos o beijo do casal. Minutos depois deste ato impulsivo, ambos têm um belíssimo insight...sem palavras, apenas com gestos. Esse beijo que renderá muitos e muitos contratempos em toda essa história de amor e relacionamento, que nos ensinará, muito, sobre sexualidade, comportamento humano, televisão e outros questionamentos.
Ao final, Abby aprende a se assumir como “neurótica”, controladora e manipuladora, mas desta vez em uma relação que a permite ser assim, de maneira saudável. Toda aquela libido antes não direcionada a um objeto “humano” retorna com força total e abre as portas para uma vida amorosa saudável, SEM RACIONALIZAÇÃO. Um acordo possível foi feito, um vínculo então pode ser estabelecido.
Sobre a Verdade Nua e Crua, talvez tenhamos diversas possibilidades: uma delas é que não há como jogar, enganar ou tentar driblar o nosso querido caldeirão inconsciente. Em termos de relacionamentos é ele quem manda e temos que seguir conforme a sua banda tocar, nossas relações mais primevas, aquelas esquecidas na amnésia infantil, ditam e colorem essas escolhas na maturidade.
Em termos de crítica social, a verdade nua e crua é que gostamos de ver porcarias na televisão, mesmo que seja por um breve e rápido momento, já que nossas vidas são tão corridas e tão pressionadas por esta dita modernidade que nos invadiu nos ultimos anos, oprimindo nossa emoção e nos forçando a sermos mais racionais, ou mesmo andando sempre no fio da navalha, corda bamba que nos leva ao borderline tão falado pelos estudiosos da pós-modernidade. Talvez essa batalha entre razão e emoção nos mostre que a razão se deixou emocionar, e a emoção se deixou racionalizar, e assim, viveram felizes para sempre ou até que novos acordos os separem.
Acordos egóicos que falam de arrumações das relações possíveis ou impossíveis, dos achados e perdidos afetivos que constroem a vida de cada um de nós. Pensar e refletir na capacidade de catarse que talvez exista em toda essa violência televisiva que nos invade, expurgando ali nosso primitivo e podendo então libertar-nos para atos mais sublimes e para a constituição de uma rede social de vínculos menos perversos, menos destrutivos, menos aliados ao que há de mais violento nos laços grupais, que muitas vezes se encontram para estabelecer uniões de pura agressão, outras, como nos faz ter esperança esse filme, promovem uma aliança saudável e assim encaminham atos que falarão de vida, de Eros dominando em uma dança graciosa com Thanatos em sua eterna repetição. Flexibilidade e mudança, caminhos tão necessários para o ato da vida.