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| A Vida é Bela (La Vita è Bella 1997) Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps Direção: Roberto BenigniRoteiro: Vincenzo Cerami e Roberto Benigni Classificado como comédia romântica, poderíamos pensar esse filme, dentro da nossa concepção, como uma verdadeira fábula cinematográfica. Sem dúvida um tema mais do que explorado pela sétima arte, a questão do nazismo, é o que alinhava o roteiro desse filme à primeira vista. Pensamos que esse seja apenas um dos aspectos abordados, o nazismo nele entra como uma verdadeira metáfora da capacidade humana de oprimir, de ligar-se a destruição entre os grupos e aponta para os traços humanos que, ao final, de alguma maneira nos ligam a todos, a um destino comum, a um entrelaçado que vivemos a maioria do tempo insistindo em negar. Por tudo isso e muitos mais aspectos, esse filme se torna interessante mesmo para aqueles que não apreciam esse gênero.Esse filme nos apresenta uma boa temática para o campo psi, o embate entre fantasia e realidade(mundo externo) que Freud propôs algo como “realidade psíquica” onde não se negligencia a questão do mundo exterior com seus dados de realidade e sequer se joga pro limbo as questões importantes da fantasia nos atos que operamos. No filme o pai, Guido Orefice (Roberto Benigni), cria frente a aterradora realidade de um campo de concentração, toda uma vivência fantasiosa que proteja seu filho do medo, teremos muito o que pensar a partir disso, indo até a importância do sintoma para sobrevivência do aparelho psíquico.Continuemos no tema, mas antes assista a esse aqui : vídeoHoje, muitas correntes psicoterápicas têm como objetivo atacar o sintoma, em alguns momentos isso poderá sim ser muito benéfico ao paciente, porém devemos pensar, e estamos tomando esse filme aqui como uma metáfora para pensar nessa questão, que todo sintoma é resultante de uma complexa negociação operada pelo aparelhamento psíquico, resultado do desejo e da defesa(famosos dois D’s), ele cumpre uma função, até que o ego possa sofrer uma modificação, é o melhor resultado que pode encontrar. Vamos pensar a partir da cena desse vídeo, frente a uma realidade atemorizante, e assim é vista a realização do impulso do id pelo ego frente a realidade e ao superego, aquele pai, representado belamente por Roberto Benigni, impõe uma nova versão onde a fantasia toma o lugar da realidade, em uma tentativa de salvar seu filho do sofrimento do campo de prisioneiros. Muitas vezes é justamente nesse espaço intermediário que está o sintoma. Que beleza pode haver na capacidade da criança em ver o mundo através dos olhos de seu pai, difícil tarefa que nos impomos ao nos aventurarmos na grande jornada da maternidade e da paternidade. Freud, mais que qualquer outro, trouxe essa concepção para que pensemos, um olhar pra trás em nossa infância perdida e um olhar pra frente nas representações que ajudaremos a construir no olhar do filho, investido por todas as nossas transferências(Figueiredo, L.C.) e por aquilo que podemos sustentar na relação com ele. Nesse encontro o resultado esperado é a possibilidade de que esse filho venha a construir sua própria subjetividade, alcançar sua alteridade. Pudessem os pais controlar as variáveis de sofrimento do mundo externo como essa fábula em filme propõe, mas também nos perguntamos se isso, caso fosse viável, traria realmente algum benefício para o sujeito em formação. Freud nos fala da questão da frustração como outro importante aspecto do aparelhamento psíquico, assim como, da capacidade de adiamento da satisfação. Nessa cena vista podemos pensar também sobre esse aspecto, uma vez que ele, o pai, substitui o sofrimento existente ali por uma promessa de um grande prêmio ao final de tudo. A espera se torna o próprio alimento da sobrevivência do ego, aqui representado nesse filho. Esse filme convida muito a que pensemos nos aspectos dos vínculos parentais e sua capacidade de doação e amor, toda a agressividade que faz parte do nosso ser também é dirigida no sentido da proteção, a questão das pulsões de auto-conservação se apresentarão totalmente modificadas, ganham uma outra dimensão, na preservação do “filo”, também emocionadamente representado no final desse filme, que nos levará a pensar na grande capacidade de ligação que há em Eros. O pai que atravessa com suas fantasias e realidade e promove em seu filho a capacidade de superação e sobrevivência, filho esse ao final do filme, devolvido a sua mãe, orgulhosamente investido da capacidade paterna de salvá-lo enquanto sujeito.Belo filme como pode a vida em muitos dos seus aspectos nos presentear com momentos de pura fantasia de braços dados com a realidade, uma dança que nos deixaremos envolver com todo o prazer e que faz com que afinal a vida possa valer a pena. |  |
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