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Entendendo Conflitos
Volver

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(Volver, 2006)

Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps

Quem disser que Pedro Almodóvar é ruim possivelmente não entendeu a complexidade da sua obra. Você pode não achar perfeita, não gostar do estilo, achar defeitos nas produções, figurinos, trilha sonora, mas não pode dizer que é ruim. É como a Monalisa de Da Vinci: pode estar rindo, sendo debochada, triste, deprimida, irônica, etc.

Os filmes dele despertam em nós diversas sensações. Podemos rir, ter nojo, chorar, ou mesmo achar brega. Mesmo negativamente, algo faz sentido no seu inconsciente.

Este filme é indicado para mulheres, famílias e namorados. Pessoas com capacidade de apreciar uma trama complexa que não envolve efeitos especiais, mas sim .

Nossa Leitura do Filme:

Por seu papel nesse filme Penélope Cruz, uma das atrizes preferidas do diretor, foi indicada ao Oscar e levou o Cannes como melhor atriz. Inclui-se no elenco também a atriz Carmem Maura, sendo possível notar-se aquela mistura entre drama e traço cômico em mais uma de suas atuações impecáveis. Não há como olhar para ela e não pensar em Almodóvar.

Esse será um filme que, com grande probabilidade, levar-lo-á a muitos insights. Apresentando um traço de mistério e muito de psicológico o filme abordará principalmente questões de relações familiares e de grupos com fortes traços de endogamia.[1]

Falará de culpas, perdão, desapego, incesto, transformações possíveis através da revisitação da própria história. Nada mais psicanalítico não é mesmo? Esse é um diretor que busca discussões aprofundadas sobre o mundo psíquico de suas personagens, como vemos em outros filmes como Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre, 1999), Fale com ela (Hable con ella , 2002) , A lei do desejo (La Ley del deseo, 1987), Atame (¡Átame!,  1990), entre tantos outros. Um filme desse diretor é sempre um convite para profundas e intensas reflexões. Nas questões que envolvem o feminino em sua construção social, é sempre um excelente instigador de análises aprofundadas.

Porém, o que queremos ressaltar em nossa abordagem sobre esse filme focar-se-á mais nas questões que envolvem as relações com o objeto em psicanálise, falando de perdão, desapego e luto. Torna-se necessário esclarecermos, mais uma vez, que essa é apenas uma das leituras possíveis.

Se você já assistiu os outros dois filmes dos capítulos anteriores, espere alguns dias e assista esse. Vai reforçar o seu aprendizado, pois fala de temas bem parecidos, sempre ligados aos objetos da psicanálise.

Vamos pensar então em qual relação teria perdão com desapego. Estranha essa junção, parece um paradoxo, porque geralmente, pelo senso comum, entendemos o perdão como caminho para uma reaproximação. Às vezes será, e outras servirá para criar um afastamento definitivo.

O que é perdoar, no sentido religioso? Pense numa resposta a essa pergunta abstendo-se de religião, crença ou filosofia religiosa. Para perdoar não se precisa estar atrelado, por exemplo, a uma religião. Você pode perdoar mesmo sendo ateu ou agnóstico.

E o que proporemos no texto é que o perdão pode ser exatamente o caminho para o desinvestimento, ou seja, o que possibilitará a retirada de investimento daquele objeto perdido (que lembremos mais uma vez, pode ser um trabalho, um vínculo afetivo, um objeto material, uma posição social, um analista, etc).

No filme veremos a longa trajetória de Raimunda (Penélope Cruz), mulher corajosa que não assume o discurso vitimizado e isso marca a construção dessa personagem todo o tempo. Mas ela só se irá libertar completamente quando puder resgatar sua história do silêncio, processo que denunciará o homem como aquele que violenta e oprime a mulher.

Em aliança com sua filha, talvez nos mostre a forma como a mulher lida com tudo isso e a possibilidade de “matar” esse homem ligado ao mito do pai primordial[2] (com todos os direitos de opressão e uso). Tudo isso será trazido por esse genial e colorido filme, com temática profunda e pesada que nos chega com toques de leveza e nos tira sorrisos espontâneos. Se puder assista-o em companhia do seu amor.

Alguns psicoterapeutas acreditam que uma psicoterapia (ou ainda a psicanálise), em seu fim último, teria como meta perdoar nossas imagos parentais[3], aquelas onde fundamos nossas fixações e que norteiam nossas buscas de investimento e identificação.

Essas imagos são construídas ao longo do nosso desenvolvimento e têm total relação com o mundo exterior e em como vivenciamos cada fase do desenvolvimento psicossexual. Nessa trama, o perdão terá que alcançar a figura materna envolvida em segredos que misturam silêncio e dor. Tudo isso dentro de um cenário sempre muito colorido que Almodóvar imprime em seus filmes.

Você já deve ter ouvido dizer que Freud fala muito do desenvolvimento psicossexual. Costuma-se afirmar que Freud versa sobre sexo. “Tudo pra Freud era sexo”, dizem alguns. E não é verdade. Freud fala de libido, de prazer, de sensação de satisfação.

Ora, com certeza você já passou por situações assim:

1 – Estava dirigindo e sentiu vontade de fazer xixi. A vontade foi crescendo e os minutos pareciam horas. Chegou correndo em casa e mal conseguiu abrir a porta. Correu para o banheiro e ufa, sentiu um alívio. Esse alívio é prazeroso? É claro que é.

2 – Estava na mesma situação, mas, havia comido algo que não lhe fez bem. Correu também para o banheiro e, ufa, que alívio.

3 – Ficou horas sem comer e seu estômago parecia um leão, rosnando sem parar. Procurou algo para saciar a fome e comeu com tanta pressa que mal conseguiu mastigar. Ufa! Que alívio, nao é mesmo?

Freud fala das fases nas quais passamos, sendo elas: oral, anal e fálica, quando sentimos prazer em diferentes partes do corpo. Repare que não estamos falando de sexo, e sim, de prazer, de satisfação da libido: em acúmulo de tensão e alívio dela.

Porém, durante este desenvolvimento, algumas pessoas podem não elaborar muito bem essa fase, e temos o que chamamos de fixações. Talvez, a maneira mais fácil de explicar, sem deturpar a teoria, seria a seguinte:

Suponha que seu psiquismo seja um exército[4]. Sim, nascer, crescer e se desenvolver é uma “guerra” que travamos entre nós (psiquismo) e o mundo exterior. Seu exército ao nascer tem cinco mil soldadinhos. Na fase oral, teriam morrido mil soldados. Na fase anal, morreram dois mil, e na fase fálica, morreram mais mil. Cada uma das fases é uma batalha, composta por desejos, satisfeitos ou não.Você mantém seus soldadinhos a vida inteira, mas, muitos ficaram ao longo dessa jornada. Isso quer dizer que a fase mal elaborada, nesse exemplo, foi a anal (quando o número de soldadinhos mortos foi maior).

Mal elaborada nesse aspecto pode ser por excesso de satisfação ou por falta. Ambos os extremos podem gerar fixações. Logo, em situações conflituosas é mais do que normal que você “retorne” a essa fase e aja com as defesas que tinha naquela época.  

Repare que mesmo assim, você perdeu soldadinhos em outras fases, e por isso, temos o que chamamos de traços de personalidade referentes a cada uma delas.

Se estudarmos mais a fundo (Psicopatologia com Orientação Analítica), poderemos perceber que as personalidades e as psicopatologias serão oriundas de fixações em fases específicas[5]. Mas, isso já é um assunto teórico demais para o momento.

Construímos nosso mundo psíquico com uma argamassa que começa em relações com nossos pais ou cuidadores (que operam essas funções). A partir disso construímos nossos senhores e senhoras internos. Os primeiros relacionamentos que temos na vida serão com essas figuras parentais. São eles que despertam os nossos melhores e piores sentimentos no ínicio das nossas vidas e a maneira como nos relacionamos com eles, e aprendemos, será levada por muito tempo em nosso psiquismo.

Voltando ao perdoar como forma de desapego, o que seria o perdão do qual falamos? Tenhamos claro que está muito longe do “dê a outra face”, muito pelo contrário. Ele é apenas uma tarefa de desinvestir, resgatar da vivência com o objeto perdido tudo o que construir possibilidades de crescimento. E embora muitas vezes a relação com esse objeto perdido seja de ressentimento e mágoa, será necessário reorganizar-se a partir da compreensão de que somos senhores dos nossos destinos e que, infelizmente, nada acontece por acaso.

Matar simbolicamente esse objeto. No filme todo enredo desenvolve-se a partir de duas mortes com as quais se envolve nossa protagonista: encobrir o assassinato do seu marido, padastro de sua filha a quem ele tenta estuprar, e o caso de sua mãe, que é dada como morta, mas reaparece para sua irmã como um fantasma.

Para que haja o resgate dessas três gerações, será necessário, um retorno à aldeia com seus ventos enfurecidos que provocam constantes incêndios. Nessa volta à província, de onde saíra muito nova, ela revive seu passado, que revela lembranças quentes (incendiárias) e dor inominável.

Há um grande resgate a ser feito e a aparição de sua mãe, retornando da morte, vem trazer à tona questões complexas de seu passado. Perdoar acaba sendo uma tarefa que entrelaça sua vivência atual com a do seu passado. Abarca as três gerações. Raimunda fará essa jornada em busca de um perdão que mistura acusação, abandono e culpa.

Entenderemos através desse filme que sem esse desinvestimento não somos capazes de “quebrar” nossos padrões de repetições, pensamos sair e o que vemos em novos modelos são as conhecidas repetições. Após alguma perda, vocé já se perguntou, por que diabos fez novamente uma escolha que levou a um desfecho já esperado? Talvez tenha sido essa pergunta que Raimunda passa a se fazer após a morte de seu marido.

Aprendendo com os erros, entrando em contato com as “figurinhas repetidas” do álbum de memória, poderá, quem sabe, mudar seus padrões e escolher objetos com características diferentes, fazer outras alianças, contemplar o ego negociando sob outras bases com os senhores dele.

Talvez seja dessa esperança que esse filme logo de início nos diz que irá falar.

O filme começa com uma cena, própria dos costumes do lugarejo, onde as viúvas, mães, filhas arrumam e enfeitam túmulos de seus entes queridos. Notam-sequele cenário de cemitério com ares de alegria e um canto que embala a tarefa. Bela e significante é a cena escolhida para iniciar essa película. Já nos avisa com essa imagem que trará um outro olhar para essas relações que nos fundam e se mantêm (como fantasmas?) ao longo da nossa existência.

Esses senhores que habitam em nós são surdos uns aos outros (id, superego e realidade), querem que se realizem suas vontades, falam todos ao mesmo tempo com nosso frágil ego que entre conversas ensurdecedoras e, na maioria das vezes, impulsos absolutamente contrários, vai tecendo acordos, contemplando um pouco cada um deles. Uma hora pode, outra não pode. Uma hora pode, mas com um pouco de sofrimento. Às vezes pode, mas não tem graça.

Dependendo de quem se contempla e como, teremos os diferentes modos com os quais o psiquismo poderá lidar com esse desinvestimento e novo investimento. Em psicanálise chamaremos isso de formações de compromissos (acordos de paz) e formações substitutivas. Podem ser sintomas ou sublimações (por exemplo, esportes agressivos), todos realizarão complexas operações de dentro do aparelho psíquico.

Então, dependendo do grau de negociação que o ego fez, não adianta apenas você repetir mil vezes em frente ao espelho que fará diferente, há em todos nós, naquilo que nos move, muito de desconhecido, um livro no escuro que muitas vezes só poderá ser lido à luz de uma passagem por uma psicoterapia.

Como se fosse um livro escrito em uma língua que sabemos falar com boa pronúncia, mas não sabemos traduzir. Já tentou ler um livro em um idioma que você não domina?
Faça esse teste. Leia as frases e perceba que você entenderá apenas algumas palavras soltas. Pode não entender nada também. Pode achar que entendeu, mas na verdade o significado era outro. Assim somos com o nosso psiquismo. Às vezes não entendemos nada dele, às vezes entendemos tudo errado, e às vezes nos comunicamos muito bem com ele.

Outras vezes, com sorte, alcançamos um entendimento e por caminhos inúmeros conseguiremos promover novos acordos. É importante lembrar, que esses acordos passam inevitavelmente a olhar para esse objeto perdido, agora destituído de atração, daquilo que nos ligava a ele. Pense em alguém que morreu, e por quem você até tinha sentimentos não tão positivos, ou tinha alguma mágoa. Veja se consegue lembrar-se desse objeto e em como somente as lembranças positivas ou neutras se mantêm.

Pense em um animal de estimação ou assista ao filme Marley e Eu (Marley & Me, 2008). Repare que na imagem que se mostra aparecem as questões ruins (sujeiras, mordidas, estragos na casa), mas são agora engraçadas e apenas lembranças, e o que fica é somente o sentimento bom, ou de saudade. Isso é elaborar bem um luto.

A isso chamamos perdão, olhar o objeto como alheio, como se ele fosse algo que não movimenta mais nossas energias. Muitas vezes, percebendo nesse objeto suas próprias limitações em termos dos vínculos que lhe impusemos a partir do nosso próprio desejo, ele apresenta características que não pertencem necessariamente à sua especificidade. É obvio então que você pode lembrar de algúem ou de algo que não lhe desperta nada de bom, mas pelo menos, não desperta aquela raiva e angústia que despertava antes.

Que trabalho duro, não acha? Por isso não adianta pensarmos em domesticar ou adestrar nossas emoções, conter-nos, sem que antes tenhamos promovido entendimentos e negociações múltiplas. Para que haja resultados, há de se perdoar, ou seja, desinvestir.

Olhando para o passado, devem-se perceber nos cuidadores da infância suas próprias limitações e impossibilidades. Siga adiante, abra mão de ser o promotor para sempre em um tribunal de eternas acusações, agora atualizadas em suas novas parcerias. Sim, essa maneira como lidamos com nossos objetos está diretamente ligada a nossa infância e em como aprendemos a lidar com eles.

Interessante observar que em alguns países esse conhecimento sobre o perdão tem levado famílias de vítimas à conversas com os criminosos responsáveis pelo ataque. Parece que são bons os resultados de superação para esses familiares que se dispõem a isso. Pensemos nisso em relação aos nossos objetos perdidos.

Resta uma última questão. Como se pode ter raiva e ressentimento de alguém que morreu e era por nós muito querido?

Entenderemos isso porque o psiquismo só consegue ver o abandono e isso gera mágoa e ira. As crianças que perdem entes queridos costumam falar disso abertamente, falam que a pessoa “sumiu” e muitas vezes demonstram de maneira clara, a raiva que isso lhes provoca.

Ah, mas e um adulto, como pode fazer isso? Frente à dor da perda, seremos arremessados com uma força de impulsão tremenda para os nossos conteúdos mais infantis. Já reparou como reagimos nos momentos mais estressantes? Perceba como você reage à dor, angústia, perdas, sofrimentos, etc.

Frente à desorganização provocada no aparelhamento psíquico pela perda (caos nas pulsões), a elaboração do pensamento mais “educado” e “civilizado”, que sucumbe a essa pressão precisa de um tempo longo para restabelecer seus laços com a realidade e lidar novamente com seu entendimento racional. Precisamos de tempo para pensar e refletir. O corre-corre dos dias de hoje talvez não nos permite muito isso, mas com certeza em nosso inconsciente atemporal, essa tarefa terá que se realizar.

Então é isso, se você perdeu um objeto importante (lembre-se que pode ser qualquer coisa) pense em perdoar, ir adiante, visite com honestidade sua mágoa, faça a faxina, descarregue e siga adiante aprendendo e quem sabe construindo novas possibilidades de fazer laços mais prazerosos e saudáveis. Tire a carga, é só resto, nada mais.

Será isso que farão ao longo do filme essas mulheres que se encontram com a tia que representa a doçura do feminino que acolhe e cuida? Nesse encontro, entre fantasmas, libertação, crime, culpa e perdão, poderemos pensar em belas construções que, ao longo de nossas vidas, buscaremos sempre em nossas escolhas e que permitem um afastamento de tudo que repete dores e silêncios.

Assista ao filme deixando-se penetrar pelas emoções sem organização que ele promove, entre lágrimas e risos, tensão e mistério, deixe-se levar pela hábil e confiável mão desse delicado diretor. Você não se irá arrepender e ao final do filme verá como algo em você estará sorrindo.

Este filme é uma jornada interna tão intensa, que não há necessidade de fazer outras perguntas após ele.  Nos remonta a questões tão antigas e que incitam a reflexão que podemos nos perder por dias resgatando informações sobre nós mesmos, naqueles momentos de folga.

Sugestão de Atividades:

- Converse com amigos (ou alunos) e veja se conhecem os filmes do Almodóvar citados.  Peça a cada um para fazer uma sinopse do filme. A criação de uma sinopse sempre nos apresenta pontos importantes da leitura daquele que descreve.

- Discuta entre amigos os melhores filmes, pontos mais importantes, pontos fortes, partes mais interessantes. Almodóvar nos fornece material muito rico, seja para uma conversa de bar, seja para uma sala de aula.

 



[1] FREUD, Sigmund. Totem e Tabu (1913). Obras Completas. RJ: Imago, 1996.

LÉVI-STRAUSS, C. O Pensamento Selvagem. SP: Papirus, 2004.

[2] FREUD, Sigmund. Totem e Tabu (1913). Obras Completas. RJ: Imago, 1996

[3] FREUD, Sigmund. Repetir, Recordar, Elaborar (1914). Obras Completas. RJ: Imago, 1996

[4] GALVAN, Alda. Aulas de Psicologia Clinica. Ulbra: Manaus, 2004.

[5] FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1913). Obras Completas. RJ: Imago, 1996

Fonte: Livro: Cinematerapia Entendendo Conflitos